2005-05-31

Sou

uma pessoa com falta de sentido de orientação.

Em centros comerciais cheios de gente, a coisa tende a piorar. Não raras vezes vou para a direita quando o que quero está na esquerda, chego a uma ponta para perceber que o que procuro está na extremidade oposta.

Nessas alturas páro, respiro fundo, conto até 3, resmungo baixinho contra os centros comerciais e tento outra vez.

Na loja

, a bébé, com poucos meses, espera no carrinho que a mãe faça as compras. Está sonolenta, rosto inexpressivo e calmo.

A mãe aproxima-se e sorri. Passa-lhe com o dedo na testa.

A bébé abre a boca e os olhos em sorrisos, esperneia e mexe os braços e as mãozinhas, toda ela a rir.


:)

Bom motivo

para aspirar o carro:

A I. passou a viagem casa-trabalho de hoje a comer as migalhas (designação genérica e optimista) todas que encontrou na cadeirinha dela.

Birras:

melhor altura para descobrir dentes novos.

(Enquanto ela abre a boca num choro exagerado e manda a cabeça para trás)

Dois lá atrás, em cima, um de cada lado, e outro à frente, em baixo, colado aos outros 3.

2005-05-30

Lembro-me

da espera no corredor por ti. Do meu corpo a perder-se em liquidos. Da fome, de ter pena de não o ter ao pé de mim, ao pai. Lembro-me do tubinho espetado na veia e de pensar que nunca mais mo tiravam, eu que detesto coisas espetadas nas minhas veias, mais que tudo, quase.

Lembro-me de finalmente te trazerem e te porem novamente tão longe, no meio das pernas, onde não chegava. De não me doer nada, de estar feliz. De percorrer corredores no escuro, já era tão tarde, demoraste tanto a vir. De chegar ao quarto e das outras mães e de pensar e me apetecer dizer "nasceu, é tão linda, venham ver".

Lembro-me da luz forte em cima de nós, do fio cortado quase rente e eu sem lhe chegar e a luz a fazer-me calor. Da mãe do segundo filho que veio ter comigo e disse "é tão linda" e eu nem lhe perguntei pelo dela porque para mim eras só tu. Dela me ter dado uma banana e eu "obrigada", tinha tanta tanta fome e só me tinham dado uma sandes, eu só tinha comido rebuçados o dia inteiro, racionados, "é melhor não comeres já outro".

Lembro-me de não ter vontade de dormir porque queria olhar para ti a noite inteira, queria vigiar-te o sono tranquilo, a boquinha fechada, as mãozinhas apertadas junto a ti, tão linda, tão linda, tão pequenina, tão minha. Acho que te deitei ao pé de mim finalmente e depois tive medo de não te conseguir devolver ao berço, não me conseguia mexer, acho, e pedi ajuda à mãe do segundo filho, acho. Não me lembro bem.

Penso que acabei por dormir um bocadinho. Tu dormiste a noite inteira.

No dia a seguir não podia acreditar nas dores e no mal estar. Sentia-me tão mal, tão fraca, tão surpreendida pelo desconforto. Não me consegui levantar da cama, lembro-me de ter chamado a enfermeira e de ela me ajudar e estava sentada na cama e depois já não estava, e a enfermeira "então querida, o que foi?" e foi horrível, tão horrível como não tinha pensado e achei que afinal não era o parto o que custava, era acordar no dia a seguir, para mim foi infinitamente pior.

Lembro-me que estava feliz e com vontade de te mostrar a todos. Sabia-os à espera e queria partilhar-te.

De chapéu

A I.

já sobe escadas.

(Precisámos de uma casa com escadas para descobrir)

Coisas boas

Um bébé a mexer na barriga!

Coisas chatas

Revisão do carro.

2005-05-27

Final de tarde


Em casa. Finalmente.

O M.

e eu somos muito diferentes. Entre outras coisas, essas diferenças reflectem-se na maneira como tratamos da I.

Assim resumidamente, ele é muito mais descontraído que eu.

O problema é que por vezes eu vejo a descontração dele como descontração a mais. E ele vê a minha maneira de ser como descontração a menos.

Até agora vamos gerindo a coisa mais ou menos, com gritos histéricos da minha parte e exclamações de impaciência da parte dele.

Pequeno exemplo: ele queria, este fds, andar de kayak com a I. A mim, só a ideia, arrepia-me os cabelos e a pele.

:)

Vou

almoçar com uma colega. Estou já com um pé dentro do centro comercial onde paramos porque quero ir à papelaria, o outro pé quase a entrar, quando se ouve um choque entre dois carros. Pelo som sei que não foi nada de grave.

Entretanto, toda a gente volta cabeças e se dirige ao local do acidente. A minha colega vai lá, mas eu entro com o pé que falta no centro comercial. Na papelaria tenho que esperar um bocado, porque a rapariga também foi ver o que se passava.

Não percebo, juro que não percebo.

Hoje

saio de casa directamente para a rua e sou presenteada com um delicioso cheiro de chuva.

(É nestas alturas que tenho pena de ter garagem e perder estes cheiros a maior parte das vezes)

2005-05-26

O calor


convida a saladas e comidas leves. Já tinha saudades.

Gosto

de ter em casa um homem que arranja coisas.

Mar

Se da primeira vez a reação não foi das melhores (ler), as seguintes não podiam ser mais felizes.

Agora que está calor, tentamos levá-la à praia cedinho sempre que podemos. Porque é mesmo ali ao lado e porque lhe faz bem.

Hoje, pernas nuas, só de fralda, corria na direção do mar. Não queria dar a mão ao pai e as ondas pequeninas não a assustavam.

Riu às gargalhadas e chapinhou na água.

Mal posso esperar por temperaturas mais agradáveis para os primeiros mergulhos ou banhos de corpo inteiro.

(A mim a água gelou-me os pés!!)

2005-05-24

Fomos

ao médico. Com o bébé está tudo bem.

Ao contrário da I. não tem o fémur maior que o normal e a cabeça é maior. :)
A mãe está boa, e por muito incrível que pareca, não aumentou um grama desde a última consulta.

O sorriso espantado a olhar para a balança deu lugar a preocupação: "E não faz mal não ter aumentado?"

"Não senhor, melhor assim."

"Tudo bem!"

(E venham os queijinhos a vaca que ri)

Ainda não percebe


que é um bébé que aí vem. Por enquanto o interesse está no umbigo da mãe.

Mas a imagem é bonita.

PAIxão


O sorriso para o pai, é assim.

Pela

pequena amostra que tenho tido nos últimos dias, cheira-me que o verão grávida não vai ser pêra doce.

Sabem

quando se está prestes a comer qualquer coisa e se oferece, por simpatia? E a outra pessoa agradece e declina, educadamente, sorriso da praxe, e ainda, com sorte, "bom apetite"?

Pois os meus colegas já sabem que aqui a menina aceita tudo e que não há simpatias para ninguém. E se não oferecem fico a olhar insistentemente.


(Piadinha, mais ou menos)

2005-05-23

O céu


não está assim tão escuro, nem as luzes tão apagadas. O amarelo da lua não está fiel. A lua está infinitamente maior e mais luminosa. Mas eu gostei.

Estava a passar na sala e de repente deparei-me com este cenário. Lindo.

(E que falta que me faz um tripé)

Partilha

"Um lago à tona do qual flutuava e arrepiou-se ao pensar que não era o fim, mas talvez e de novo o princípio de tudo."

Um texto tão bonito que não posso dizer mais. Tocou-me muito.

Aqui.

À autora, obrigada. Só.

Parece-me

que posso dar como terminada a fase da inércia de fim de dia desta gravidez.

Graças a Deus!! Já não podia comigo própria.

A partir

de agora, são para esquecer os movimentos bruscos, o levantar e sentar num ápice.

Os meus ossos da bacia estão em movimento.

Gosto

do Obrigada e do Por favor, e respectivas variantes.

Para mim não é uma questão de formalismo, é uma questão de educação.

Nada

como uns quantos jogos de final de campeonato para se fazer um percurso habitualmente concorrido em poucos minutos.

(De rádio ligado, claro..)

2005-05-22

Coisas novas

Enquanto o M. monta a cadeirinha na bicicleta, a expectativa é grande. Ela olha curiosa.

Finalmente sentada, parece satisfeita. Capacete na cabeça, segura, falta o registo fotográfico do momento. Ela ri-se e faz adeus, eu tiro a máquina "rápido, rápido", ligo, viro o visor, olho, "ela está tão gira", tão sorridente, tão perfeita, olho para a máquina pronta a disparar...

"Change the batteries".

Fica a memória dos sorrisos e gargalhadas e adeus, e palmadinhas nas costas do pai.

2005-05-21

Descobertas

Eu

já tinha reparado nestes comportamentos na ama e acho que até já o referi aqui. Quer tudo o que os outros têm. Arranca os brinquedos das mãos dos outros. É mandona e autoritária. Refila e dá gritinhos. E, para cúmulo, é uma despachadona no meio de miúdos bem mais calmos - todos. Que não lhe retribuem as antipatias e se quedam mudos e espantados, de mãos repentinamente vazias, a olhar para ela.

Hoje foi a cereja no cimo do bolo, ou a prova final de que está numa fase (esperamos) muito egoísta.

Tivemos a visita de uma amiga e da filha, dois meses mais nova que a I. É um doce. Linda, linda, alegre, bem-disposta.

Tudo o que ela tocava fazia com que a I. desatasse aos berros e lha tirasse das mãos. Muito agressiva, furiosa, e com uns olhares terríveis. Indescrítivel!!

Eu e o M. estavamos mais ou menos perplexos e sem saber muito bem como gerir aquilo. Tentámos que partilhasse mas não resultou. Rimos, nós e a nossa amiga, que só dizia "ela é terrível!!".

No fim, despedimo-nos na esperança que no próximo encontro as coisas sejam mais fáceis.

(E que isto seja só mesmo uma fase!)

2005-05-20

Cu-cu!!

Exageros ou Como às vezes nos surpreendemos a nós próprios

(Contexto: depois de meia hora de fotos disparadas, ponho a máquina a descarregar para o computador. Na máquina, além das fotos que disparei nos ditos 30 minutos - mais coisa, menos coisa - estão uma data de fotos antigas que ainda não apaguei, porque vamos formatar o disco do computador onde elas já estão. Isto tudo para dizer que o programa que faz o download das fotos percebe quais são as que estão no disco, e não "puxa" essas. Ou seja e finalmente, o programa apenas devia fazer o download das que eu tinha acabado de tirar.)

(À parte: se depois do contexto longo e sem interesse não tiverem paciência para o resto do post, eu compreendo.)

Eu: Ó M., já apagaste as fotos do computador?
M.: Não, porquê?
Eu: Porque está a sacar mais de 100 fotos. (Vou espreitar) 116!
M.: Sim, mas isso foram as fotos que tiraste agora. Quer dizer, eu tirei 16, tu deves ter tirados as outras 100.
Eu: Ah, que exagerado!!! Não pode ser..

Mas podia. 116 fotos. Em meia hora.

E pensava eu que estava mais comedida.
ou
Vivam as máquinas digitais.

Hoje

, às 6h da manhã, vimos o Queen Mary II chegar e depois fomos dormir mais um bocadinho.

Vestígios

Ao início era a baba ou o ranho secos no ombro esquerdo. Agora são as marcas dos sapatos nas calças.

A maternidade marca-nos, e não é só por dentro.

2005-05-19

Ofereceram-me

uma tarte de maça.

Ou melhor, ofereceram-na e eu ofereci-me para a comer. :)

Quando o meu colega me estendeu a mão e a vi embrulhada numa embalagem do McDonald's, já era tarde demais. O sorriso deve ter-me morrido na cara, mas não fui capaz de mostrar o meu desapontamento ao colega.

E pior, vou ter que comer a tarte.

(Ainda sou processada pela McDonald's)

Ai, o que eu gosto

do intellisense.

(Piada informática)

Ai, o que me apetecia

um concerto de Portishead.

Novas

Quando chega à ama, cumprimenta cada um dos amiguinhos.

Isto significa duas mãozinhas na cara, umas festinhas e de vez em quando um abraço e/ou uns beijinhos.

Mesmo quando lhes tira os brinquedos das mãos, a seguir dá beijinhos para compensar.

(É uma beijoqueira, é o que é!)

2005-05-18

Estive

uma data de tempo no governo civil à espera para ser atendida. Nesse (longo) período, pude observar a funcionária que atendia o público.

A funcionária trazia calças brancas, sandálias azul-bébé, duas camisolas azul-bébé, dois anéis azul-bébé, um penduricalho com uma pedra azul-bébé, brincos azul-bébé e sombra azul-bébé nos olhos.

As grávidas também enjoam as cores?

Adenda: unhas pintadas de azul-bébé.

A

mãe solteira pode pedir um passaporte para a filha.
O pai solteiro precisa da autorização da mãe.

Ah-Ah-Ah!

Ó mãe

O que eu gosto mesmo é de andar de ténis, calças largueironas e camisolas de algodão, passar a vida a passear e não gosto de me pintar nem usar saltos altos.

Por outro lado tenho uma filha, outro a caminho, carro e casa para pagar, e já tenho 28 anos.

Eu já sou grande, mãe?

Posso deitar-me no teu colo e tu fazes-me festinhas na cabeça, mãe?

(Não quero ser grande)

Das viagens

normalmente trazemos prazeres novos.

Da Argentina e do Chile, além da alma cheia, trouxemos a palta ("molho" feito com pera abacate, limão, azeite e sal) e a Mercedes Sosa.

Hoje de manhã, "Solo le pido a Dios", Mercedes Sosa.

Às vezes

, entro no quarto devagarinho e colo a cara às grades. Fico ali enfiada a absorver-lhe o rosto, os cheiros e o sono tranquilo.

2005-05-17

Ai que satisfeitinha

que eu estou com as calças normais (não grávidas) que comprei para mim.

Viva a cintura descaída e viva a tira de algodão a substituir a vulgar zona do cinto.

(Mais uma vez constato que o meu corpo grávido não serve para a roupa grávida que se vende. Pareço uma baleia num saco de batatas.)

À quarta-feira

vem a rapariga que nos dá uma ajuda com a arrumação da casa.

À terça-feira à noite arrumamos a roupa que ela passou na semana anterior, não vá ela pensar que cá em casa não fazemos nenhum.

Olhe, se faz favor

Era para entregarem o jantar lá em casa, prontinho, pode ser?

Hoje apetecia-me:

Creme de espargos com natas e umas ervinhas a boiar (ai, ervinhas não pode ser por causa da toxoplasmose)
Salmão grelhado com molho de manteiga e puré de batata
Cheesecake de frutos silvestres

(E depois lavem-me a loiça, 'tá bem?)

Obrigada.

Entro

na conservatória do registo civil.

Fico estupidamente feliz de me lembrar de nós os três ali.
Tu pequenina e metida no ovinho apertado. O M. feliz. Eu, toda dorida ainda, cansada, branca, feia, gorda, mas feliz.

Lembro-me do tempo que esperámos, do dia de sol lá fora, da discussão do nome já de caneta na mão, a funcionária à nossa frente, e o M. finalmente a convencer-me a dar-te uma filinha de apelidos, só para teres um apelido da tua avó, "então também fica com o da minha mãe" e "ai que nome horrível, eu depois digo-lhe que a culpa foi tua".

Estendo o boletim de nascimento à funcionária, sorrio quando leio a data, foi há tanto e há tão pouco tempo.

A minha barriga a empurrar o balcão, a minha mão a fazer uma festinha, "qualquer dia nasces tu".

Coisas que me irritam

Uma rua com estacionamento ao longo de todo o lado direito. Apenas três carros estacionados.

Um carro parado em cima do passeio, a ocupar parte da estrada de sentido único, do lado esquerdo, precisamente ao lado de um dos únicos três carros estacionados.

Ontem

comprei a versão comemorativa dos 25 anos do "Rosa, minha irmã Rosa". Comprei-o um bocadinho para a I. e também para mim.

Li-o no café e depois continuei a lê-lo no carro. Emocionei-me.

"Abri muito os olhos e fechei as mãos com força" para não chorar. Estou feita numa lamechas é o que é.

(Ainda me lembro do que chorei baba e ranho - sem exagero - a ler "O meu pé de laranja lima")

Hoje

, "Aquele abraço" do Gilberto Gil fez-me dançar no carro e adormeceu a I.

2005-05-15

Pomos

uma I. em frente de outra I. (nomes iguais), dizemos

"Ó I. dá um beijinho à I.!"

e ficamos com duas criancinhas muito baralhadas.

:)

Amanhã

faço 28 anos.

Tirei o dia de férias e vou gozá-lo a fazer coisas pouco especiais que não costumo fazer.

Desde que fui mãe, vejo o meu aniversário de forma diferente. Não sei explicar.

(E nem tento..)

O dia

esgotou-se em corridas, brincadeiras, risos, guinchos e mimos dos avós.

Agora a casa enche-se de silêncio e ausências. Estamos só as duas.

Deito a cabeça no sofá, num pedido mudo de carinhos. Ela ri-se em antecipação. Encosta a cara à minha, e as mãozinhas fazem-me festinhas trapalhonas.

Gosto de a sentir assim, pele com pele, cheiro com cheiro, calor com calor.

Às vezes dura só uns segundos, mas nesse privilégio de tempo, sinto-me tão feliz que só me apetece chorar.

Gosta de



Brincar com a água!

Ter

a minha mãe cá em casa significa, entre outras coisas boas, dormir até mais tarde.

Obrigada, mãe, por seres como és.


(Hoje a I. acordou às 6h da manhã)

2005-05-14

Páááááaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!

Os bracinhos muito esticados, a boca e os olhos a abrirem-se em sorrisos.



É menina do papá, ó se é.. :)

Coisas que fiz com a I. e não vou fazer com este bébé (II)

Amamentar em "público".

Foi coisa que nunca me deixou à vontade. Mas porque me parecia parvoíce (e é), tentava contrariar. Depois deixei de o fazer. E desta vez não o vou fazer de todo.

Porque, para mim, amamentar tem mais sentido num sítio recatado, só os dois. É um momento nosso, e o pai é o único com quem sinto que o posso partilhar com prazer. Porque é especial. Porque sim. E a não ser que seja mesmo necessário, não o vou fazer.

Cada vez

que entro num, reafirmo-o para mim própria:

Centros comerciais com a I. só mesmo em situações muito peculiares.
Prefiro não ir.

2005-05-13

Coisas que fiz com a I. e não vou fazer com este bébé

Acordá-lo a meio da noite para lhe dar de mamar.

Na maternidade disseram para não a deixar mais de 4 horas sem mamar. E eu assim fiz. No dia que fomos ao pediatra pela primeira vez, ele aconselhou-nos a não o fazermos. Fiquei feliz da vida.

A partir dessa noite a I. começou a acordar sózinha para mamar.

Brincadeiras

No banho, enfia a cara na água e ri-se ás gargalhadas!

De manhã

, estou a vestir-me e viro-me para o M.:
"Mas eu já estou assim tão mais gorda?"
Ele, cauteloso:
"Ahhmmm.. Nããããooo...."

(Não fiquei convencida)

Ontem

, a pensar nas férias, fomos a uma loja de desporto experimentar uns porta-bébés.

O M. estava entusiasmado, escolheu uns quantos modelos, agarrou na filha e zás.
E a filha, assim que se viu ensalsichada às costas do pai, zás. Desata aos berros e ai tirem-me daqui.

A esperança é que, dado que ela está numa fase de desatar aos berros por dá cá aquela palha, aquilo tenha sido (mais) uma expressão da sua má-disposição e não uma incompatibilidade séria com os porta-bébés.

Daqui a uns dias voltamos a tentar.

Hoje

o meu irmão mais novo faz 22 anos. Parabéns, J.

O aniversário dos 22 marcou o início de uma fase importante na minha vida.

Acabei o curso.
Mudei de cidade.
Arranjei o meu primeiro emprego.
Deixei de depender dos meus pais.
Fiquei afastada do M.

Hoje, no carro, a contar dedos imaginários, dei-me conta de que já passaram (quase) 6 anos.

SEIS anos. Bolas..

2005-05-12

Irmãos

A minha mãe diz que que quando ele nasceu, eu ficava ao lado do berço e tentava espetar-lhe os dedos nos olhos. Ou que lhe roubava a chucha.

Mais tarde, lembro-me que discutíamos a propósito de tudo.

Lembro-me que dormíamos juntos numa cama enorme e traçávamos uma linha invisível que a dividia supostamente ao meio e não havia tolerâncias a invasões. Quando elas aconteciam havia gritos e almofadadas e puxões de cabelo.

Lembro-me de medirmos forças em cenas de porrada.

Lembro-me de, um dia na praia, discutirmos porque ele tinha levado o meu walkman e dizia que porque o tinha levado ele é que o podia ouvir e eu dizia que o walkman era meu, e eu é que o ouvia.

Lembro-me que no início da adolescência o meu pai me impingia a presença dele nas saídas à noite e eu me passava.

Lembro-me que se ressentia comigo por ser a filha das boas notas e ele ser o filho das notas não tão boas e que dizia que o nosso pai gostava mais de mim.

Lembro-me das minhas acusações e ressentimentos pelas asneiras dele que deixavam a minha mãe deprimida com queixas ao telefone.

Lembro-me das nossas discussões azedas e dele me acusar de ter a mania que sei tudo.

Raramente partilhámos, nos entendemos ou fomos amigos.

Hoje a distância trouxe-nos alguma paz e nas poucas vezes que estamos juntos não discutimos, mas também quase não falamos. Sei que não sei comunicar com ele e sei que ele prefere falar com o M. que comigo, quando tem algum problema ou está chateado. Ou quando precisa de alguma coisa.

Sei que gosto dele como se gosta de um irmão, que não gosto mais do outro que dele, apesar da nossa relação ser diferente.

Tenho pena da relação que não tivemos e de me sentar à frente dele e não saber que lhe dizer, não saber como lhe dizer que gosto dele e que gostava que fossemos amigos e cúmplices.

Temos 1 ano e sete meses de diferença e essa proximidade nunca nos aproximou.

A I. tem 13 meses e o bébé dentro de mim tem 13 semanas. Gostava muito que fossem grandes amigos.

Subterfúgios

Esconder a metade da sandes que não comi na gaveta, para ver se me esqueço dela.

Agora a sério

Eu sou mesmo uma pessoa com muitos defeitos. Aquele post lá em baixo não era para me consolarem, me passarem a mão pela cabecinha e me dizerem que não, ai és tão querida.

Quem (só) me lê, apenas conhece a faceta da Xana que escreve. Mais ou menos reflectida e pensada.

Não tenho problemas em admitir os meus defeitos. Faz-me mais confusão a ideia ou pretensão de que se é perfeito, do que a imperfeição nas pessoas.

Antes

eu era uma pessoa organizada. Raramente me esquecia de alguma coisa. E gostava de ser assim.

A confusão transtorna-me, a desorganização também. Gosto de antecipar, de planear. Gosto que as coisas funcionem bem.

Agora até tenho vergonha de dizer como sou. Mas, para exemplificar, hoje o M. encontrou umas fatias de pizza em avançado estado de decomposição no porta luvas do carro. Eu nem me lembrava de alguma vez as ter posto no carro. Se fosse há uns tempos atrás, afirmava já que não tinha sido eu.. Agora não.

Estou triste, estou mesmo muito triste.

Ó mãe

, eu já sou grande?

Post idiota

Acabou-se o meu creme hidratante, vou usar o creme de noite para o substituir. Será que a minha pele vai ficar com os horários trocados?

Olhe, se faz favor

importa-se de me devolver a minha filha de há duas semanas atrás, aquela que não rabujava a cada 5 minutos?

Obrigada!

2005-05-11

Ai meu Deus!!!

Acabaram de me dizer que pareco uma pessoa confiante e sabedora.

Não sou não! Juro. E tenho montes de defeitos, a sério.
E medos e inseguranças, e dúvidas e crises de mau humor e muito, mas muito mau feitio.

Sou até um bocado chata e atada e dependente. E sou egoísta e mimada.

Pronto, a mão limpa a testa, e já me sinto melhor.

Olho

para as fotos antigas dela e apanho um susto..

CRESCEU TANTO!!

Lembro-me

Da casa em L. Do meu quarto visto da cama enorme. Do sofá individual quase encostado à aparelhagem no móvel, e do espaço que sobrava para mim entre os dois. Da minha mãe e do N. a subirem as escadas, ele com o tricicolo na mão. Do meu dedo preso na bola do gelado, o fotógrafo "sorri" e eu com medo que o meu dedo nunca mais se soltasse, esse medo guardado para sempre na foto.

Da casa na C. Do chão de tábuas velhas corridas a ranger. As portas enormes e os tectos altos de madeira, os gatos e ratos que corriam lá em cima, no sotão. Das escadas de pedra intermináveis, e do meu avô connosco sentados nas pernas, do sorriso terno. Da varanda que me parecia enorme. De umas sandálias com furinhos e dumas meias de renda vermelhas até ao joelho (valha-me Deus..).

Do primeiro dia na escola, a minha mãe a levar-me pela mão e a deixar-me lá. Das corridas pelo pátio, da professora que diziam mijar no litro (copo de medida), das fotos de grupo, todos ranhosos. Das composições afixadas na sala. Da minha mão a passar pela pedra da ponte a caminho de casa, do meu cão que me seguia sempre, todas
as manhãs "vai-te embora", pedrinhas e nada, até à escola.

Do vestido horrível com folhos e flores que a minha mãe me obrigou a levar à missa, das lágrimas que chorei de raiva e vergonha, dos olhos vermelhos e inchados. Da promessa que fiz, para sempre, que nunca filha minha ia ser obrigada a vestir nada, e de como nunca lhe perdoei essa insensibilidade.

Das visitas aos familiares dos quais já esqueci o nome e os laços. Das suas casas velhas e sombrias, as cozinhas com lareira enegrecidas do fumo, as castanhas assadas em assadores enormes de ferro preto, ao lume. Os cheiros das casas, as roupas pretas dos velhos. Do Natal.

Lembro-me e, se fechar os olhos, ainda vejo.

2005-05-10

Livros

da Alice Vieira.

(A propósito de uma entrevista na SIC Notícias)

A minha escritora de infância preferida. Todos os dias tenho vontade de lhe reler os livros.

A-D-O-R-O.

Se pudesse escrever como alguém, eu queria escrever como ela.

Não esqueço o "Temos que animar a Susana", os dedos com chocolate derretido na janela, a irmã acabadinha de nascer, as paredes do quarto pintadas a lápis.

Reminder: Trazer os livros todos dela na próxima ida à casa dos pais.

Fases

Agora está numa fase choramingona.

Choraminga a torto e a direito pelos motivos mais palermas.
Faz cenas dramáticas e lança-se no chão em protestos.
Chora quando saímos do sítio onde está.
Chora quando a contrariam.

Chorar é a palavra chave.

(A sorte dela é que continua também a sorrir e dá uns abraços deliciosos)

Aqui há tempos

, estava a sair da ama com a I. para ir para casa, e vejo uma mãe com duas crianças. Uma, maiorzinha, ia sossegada à frente. A outra, a chorar compulsivamente, pela mão da mãe.

A mãe bem que se esforçava para que o pequenino(a) andasse, mas ele(a) recusava-se, arrastava-se, chorava, gritava.

A mãe desesperava.

Já no carro, na brincadeira com a I. (gosto de brincadeiras sem horas nem sítios marcados), vejo novamente a mãe. E os filhos.

O pequenino(a) continuava no seu choro infindável e a mãe arrastava-o(a) pela mão e de vez em quando parava e dava-lhe umas palmadas no rabo, e gritava com ele(a), nitidamente mais irritada.

Eu não gosto de criticar as maternidades das outras, as opções, as convicções.
Eu não gosto de fazer avaliações precipitadas, de fora, sem conhecimento de causa.
Eu não gosto.

Mas aquilo custou-me tanto. Mesmo sem saber de nada, mesmo sem querer criticar nada.
Tanto, tanto, tanto, que fui com o coração apertado até casa.

Gosto

de ler o blog da Cláudia.

Gosto dele porque:

É feito de episódios fáceis de ler e de gostar.
Não fala só dos filhos, fala também da Cláudia.
Não debita sentenças a torto e a direito.
Não é feito de momentos perfeitos.
Tem humor, tem sentimento.

Gosto porque sim. E a Cláudia parece ser um doce de pessoa.

Consulta

no obstetra, depois da I., antes do bébé.

(...)
ele: Em termos fisicos não há problema nenhum. Mas é muito cansativo dois filhos com uma diferença de idades tão pequena.
eu: *silêncio*
ele: Mas se têm avós por perto para ajudar, então acho que devem seguir em frente, se é isso que querem!!
eu: *silêncio*
ele: *expectativa*
eu: Pois.

(Pequena explicação: + - 300 Km's de distância à avó mais próxima)

Olhe, se faz favor

eu queria que o nosso filho que cresce na minha barriga fosse muito saudável, pode ser?

Obrigada

à C. e ao G. por serem os amigos fantásticos que são.

Obrigada por ficarem com a I. enquanto os pais se vão divertir para um concerto de outra forma difícil.

Obrigada.
Obrigada.
Obrigada.

São os amigos mais lindos que tenho. Mesmo, mesmo.

Coisas a não fazer

quando se está grávida: tentar vestir as calças de antes.


(Para a barriga olha-se com orgulho e admiração. Para as outras zonas do corpo que crescem, não.

e/ou

A minha gordura não se distribui de forma inteligente. Distribui-se de forma deprimente.

e/ou

Os queijinhos a vaca que ri que como todos os dias acomodam-se entre os meus joelhos e a minha cintura)

Adoro

percussão, saxofone e contrabaixo.

Quando a isto se junta uma voz fantástica, está a festa feita.

2005-05-09

Voltaram

as barrinhas foleiras!

:)

Ai o que eu não dava

por um queijinho de tamanho gigante "A vaca que ri".

Planear férias

Antes de ter filhos:

* Comprar os bilhetes de avião mais baratos possível, mesmo à última, não vá aparecer alguma promoção
* Ver muitas fotos e informação de tudo o que há para ver no destino
* Encher uma mochila de roupa
* Partir à aventura sem nada marcado

Depois de ter filhos:

* Escolher destinos civilizados e seguros
* Pensar que se calhar é melhor um avião sem escalas, ainda que mais caro
* Ver muitas fotos e informação de tudo o que há para ver no destino e excluir algumas coisas
* Alugar carro antes de ir
* Levar cama para ela ou não?
* Levar carrinho para ela ou não?
* Planear alojamento em condições
* Escolher quantos dias se fica em cada sítio por causa do alojamento
* Marcar alojamento
* Pensar que comidas ela vai comer, e se há alguma coisa que se possa levar
* E se ela fica doente no dia antes????
* Pensar qual da muita tralha que movimentamos com ela é dispensável e qual não é

(isto só assim de repente
ou
ai jesus, que falta menos de um mês)

Hoje à noite

, Milton Nascimento.

Quem sabe isso quer dizer amor

Cheguei a tempo de te ver acordar
eu vim correndo a frente do sol
abri a porta e antes de entrar
revi a vida inteira

pensei em tudo que é possível falar
que sirva apenas para nós dois
sinais de bem, desejos de cais
pequenos fragmentos de luz

falar da cor dos temporais
do céu azul, das flores de abril
pensar além do bem e do mal
lembrar de coisas que ninguém viu
o mundo lá sempre a rodar
e em cima dele tudo vale
quem sabe isso quer dizer amor
estrada de fazer o sonho acontecer

pensei no tempo e era tempo demais
você olhou sorrindo pra mim
me acenou com beijos de paz
virou minha cabeça

eu simplesmente não consigo parar
lá fora o dia já clareou
mas se você quiser transformar
o ribeirão em braço de mar

você vai ter que encontrar
onde nasce a fonte do ser
e perceber meu coração
bater mais forte só por você
o mundo lá sempre a rodar,
em cima dele tudo vale
quem sabe isso quer dizer amor,
estrada de fazer o sonho acontecer

Tristeza

É um corredor de hospital cheio de macas com pessoas idosas que mereciam outras condições.

Alegrias da Maternidade

Umas calças lavadinhas e ela cospe sopa para cima delas.

2005-05-06

Vida

Na minha barriga cresce um bébé.
A I. começou a andar e já corre, balbucia os primeiros sons.

A avó do M. não se tem sentido bem, e foi há bocadinho para o hospital.
O meu pai vai ser operado ao coração.

A vida começa e acaba, começa e acaba, começa e acaba.
Vai começando e vai acabando.

Entro

no carro para ir almoçar, e arrepiam-se a pele e a alma com as últimas notícias dos casos de meningite.

Adivinho um resto de vida cheio destes medos.

(Os medos de tudo o que lhes possa acontecer)

Coisas boas

Os olhos dela a rirem muito perto da minha cara.

2005-05-05

Ao telemóvel

(...)
eu: Só para dizer que estava tudo bem, fizemos agora a eco!
pai: Ok. Então e é rapaz ou rapariga?
eu: Então, ó pai.. Mas nós não queremos saber..
pai: Outra vez?!?!?!?!

Bichos

Eu não gosto de bichos, mas alguns bichos gostam de mim. Com bichos quero dizer bicharocos. Coisas pequenas, pretas.

Se numa sala cheia de gente houver uma melga, é a mim que ela morde.
De vez em quando apareço cheio de babas e comichões.

Houve um episódio do qual não me vou esquecer tão cedo. Eu não sei se foi uma pulga, se foi um percevejo, se o que foi.
O que eu sei é que um dia apareci mordida e muitos dias depois fui continuando a aparecer mordida. Mas não era uma mordidela ou duas. Não.

Eram MUITAS.

Eu troquei a roupa da cama, eu pus o colchão ao sol, eu enchi o quarto de sprays, aspirei a casa toda, lavei a roupa toda, os armários, o roupeiro, mudei de quarto. Eu sei lá o que fiz.

Passava horas a olhar para o meu corpo à procura do nojento do bicho invasor e nada.

Ao fim de algum tempo já chorava quando via uma baba nova, o meu corpo cheio de pintas vermelhas.
Imaginava passeios pelo meu corpo, pulgas a reproduzirem-se e a sobreviveram a todas as intempéries, aos meus ataques de limpeza.

Um dia como outro qualquer acabou. Eu nem queria acreditar.


Venho do campo, mas não gosto de bichos. Bicharocos.

Pela

primeira vez com uma camisola que não esconde a gravidez e muito feliz com isso!

2005-05-04

Hoje



, com uma lágrima no canto do olho, convenci-me de que é mesmo verdade.

Tem 12 semanas e 3 dias, cresce na minha barriga, e já gostamos muito dele(a).


(Mais coisas, aqui)

Ora bem... Deixa cá ver...

Passo

o tempo a chamar ranhosa à minha filha.

Ó ranhosita isto, ó ranhosita aquilo.

Agora, como que por castigo, quem está ranhosa sou eu. E não é pouco.
Resta-me o consolo de me assoar sozinha e não esfregar o nariz nas piores ocasiões.

2005-05-03

Amigos


Um casal amigo fez recentemente a primeira viagem com o filho, que ainda não tem dois anos. Foram 15 dias para a Costa Rica.

Parece que foi cansativo mas bom.

Na foto, mãe e filho. Lindos.

Dia Mundial da Asma

O pai M. tem asma.

Quando era pequenino estava sempre a caminho do hospital. A mãe conta que ele não se queixava e, maiorzinho, só pedia uma revistinha para ler enquanto esperava.

Teve uma infância difícil por causa desta doença e era uma criança magricelas e com ar pouco saudável.

Acredito que as experiências menos boas que viveu por causa da asma, ajudaram a que se tornasse na pessoa maravilhosa que é hoje.

Quando adolescente começou a praticar surf e melhorou bastante. Deixou de ser enfezado e de ter crises constantes.

Dos nossos tempos iniciais de namoro ainda lembro algumas crises, quando aconteciam o esforço fisico ou as alergias. Por duas vezes tive que conduzir com pressa para o hospital, angustiada, a respiração difícil e sibilante.

Agora, faz medicação preventiva e está bem melhor. Quase nos esquecemos da asma.

Quando fiquei grávida, o fantasma começou a perseguir-me.

A I. até agora não teve qualquer manifestação da doença. Já se constipou sem complicações de maior. Tenho esperança que não faça parte da percentagem dos que herdam a doença.

Da minha parte faço e fiz tudo para que não aconteça. Livrei-me do tabaco e não o tolero em minha casa ou perto dela.

Espero que filhos meus não tenham essa complicação e que o M. continue com a doença controlada.


Cerca de 100 - 150 milhões de pessoas no mundo sofrem de asma, ocorrendo mais de 180.000 mortes por ano.

2005-05-02

Gostos

Ovos verdes


Feitos pela minha mãe. Finalmente.

O pai M.

adora o mar. Adora, adora, a-do-ra.

A-d-o-r-a!

A primeira vez que, muito orgulhoso, carregou a filha nos braços areia adentro, a expectativa era grande. Rodeavam-nos familiares histéricos de sorrisos nos lábios.

Aproximámo-nos do mar, muitos. Parámos, e especámos todos a olhar para ela. E ela para o mar.

Não sei se pelo mar, se pela areia, se por nós especados, se porque sim, a I. desatou num berreiro imenso.

O M. ficou triste, eu ri-me, e saímos todos em romaria da praia.

Penitência

Há uns tempos fiz uma coisa horrível. Foi horrível, para mim foi. Não me tentem contradizer. Não me consolem. A sério. Este post não é para isso, é para não me esquecer. É um bocadinho para me penitenciar.

Eu e o M. decidimos, daquela maneira dúbia que se decide, quando ainda não se sabe do que se está a decidir, mas como quem quer muito que assim venha a ser (muito, muito, muito), que não íamos bater na I.

Que não íamos dar palmadas nem palmadinhas. Muito menos tudo o resto. Que íamos tentar sempre as outras formas, as que consideramos correctas. O diálogo, o exemplo, o castigo.

Este post também não é para dizer que a nossa decisão é que está correcta ou é a melhor. Que é a certinha, a perfeitinha, a boa. É apenas a nossa. Não queremos criticar, comparar, convencer. Este blog não é para isso, obrigada.

Há muitos meses atrás, no ínicio da fase da rebeldia na muda da fralda, num dia particularmente difícil, ou talvez não, numa altura em que ela se virava e à fralda, e ao creme, e às toalhitas, e a mim, e à toalha onde estava deitada, enquanto eu me debatia com tudo isso e pernas e pés e braços e mãos e birras, passei-me.

Passei-me e tive uma atitude irreflectida, incontrolável - ou não -, brusca, errada. Quando me dei conta já o tinha feito. Quando me dei conta, ela parava a olhar para mim, a birra suspensa no ar, os olhos subitamente muito abertos, a boquinha a contorcer-se de desgosto, as lágrimas a assumarem os olhinhos ainda muito abertos, o choro que veio, sentido, e a minha mãe na cozinha "Ó Xana!!", crítica.

Dei-lhe duas palmadas no rabiosque. Dei-lhas da mesma forma que tantas vezes já o tinha feito na brincadeira. Dei-lhas, com um ar provavelmente furioso, enquanto gritava o nome dela. Dei-lhas, estupidamente, sem motivo, sem razão.

Dei-lhas e não lhas devia ter dado. Fiquei arrasada. Senti-me a pior pessoa do mundo. Ainda me apetece chorar quando penso no ar sentido dela.

Durante dias nem fui capaz de contar ao M. Quando o fiz, ele olhou-me com ar de crítica mas perdoou-me.

Este episódio pode parecer insignificante, mas para mim não é. Lembra-me que a linha que separa o correcto do incorrecto é tenue, mesmo quando achamos que temos as ideias bem definidas.

Desculpa, filha.

(Normalmente consigo escrever os posts "mais sentidos" de uma forma que me consola, que no final me faz sentir melhor. Até tento terminar com uma frase conclusiva, que resume tudo e que soa bem. Com este post não foi possível. Escrevi-o com o coração apertado até ao fim. Não há consolo possível. Não há frase bonitinha a terminar.

Lembra-te.)

2005-05-01

Dia da Mãe

Dia menos fácil.

Poucas horas de sono durante o dia. Risos que alternam com choros inexplicáveis.

À noite, a rotina quebrada, não quer dormir. Chora, grita, não se acalma no colo, só na sala, longe do sono que não quer.

Rabujices, choros, fitas. Estou cansada e apetece-me agarrá-la e deixá-la com o pai, com a tia, com quem for.

Lembro-me que um dia, a minha mãe, conta ela, já no 3º filho, perdeu a cabeça. Agarrou nele e no choro dele, entrou na casa da minha tia e disse "Não o quero, fica com ele".

A minha mãe, a pessoa mais calma e "mais mãe" do mundo.

Depois foi buscá-lo, claro.

A minha maternidade sobrevive à custa do sono dela, da ausência dela, no quarto. Dos silêncios, das pausas. Do tempo para respirar fundo e recuperar energias e paciências.

Não faz mal. É mesmo assim.