Há uns tempos fiz uma coisa horrível. Foi horrível, para mim foi. Não me tentem contradizer. Não me consolem. A sério. Este post não é para isso, é para não me esquecer. É um bocadinho para me penitenciar.
Eu e o M. decidimos, daquela maneira dúbia que se decide, quando ainda não se sabe do que se está a decidir, mas como quem quer muito que assim venha a ser (muito, muito, muito), que não íamos bater na I.
Que não íamos dar palmadas nem palmadinhas. Muito menos tudo o resto. Que íamos tentar sempre as outras formas, as que consideramos correctas. O diálogo, o exemplo, o castigo.
Este post também não é para dizer que a nossa decisão é que está correcta ou é a melhor. Que é a certinha, a perfeitinha, a boa. É apenas a nossa. Não queremos criticar, comparar, convencer. Este blog não é para isso, obrigada.
Há muitos meses atrás, no ínicio da fase da rebeldia na muda da fralda, num dia particularmente difícil, ou talvez não, numa altura em que ela se virava e à fralda, e ao creme, e às toalhitas, e a mim, e à toalha onde estava deitada, enquanto eu me debatia com tudo isso e pernas e pés e braços e mãos e birras, passei-me.
Passei-me e tive uma atitude irreflectida, incontrolável - ou não -, brusca, errada. Quando me dei conta já o tinha feito. Quando me dei conta, ela parava a olhar para mim, a birra suspensa no ar, os olhos subitamente muito abertos, a boquinha a contorcer-se de desgosto, as lágrimas a assumarem os olhinhos ainda muito abertos, o choro que veio, sentido, e a minha mãe na cozinha "Ó Xana!!", crítica.
Dei-lhe duas palmadas no rabiosque. Dei-lhas da mesma forma que tantas vezes já o tinha feito na brincadeira. Dei-lhas, com um ar provavelmente furioso, enquanto gritava o nome dela. Dei-lhas, estupidamente, sem motivo, sem razão.
Dei-lhas e não lhas devia ter dado. Fiquei arrasada. Senti-me a pior pessoa do mundo. Ainda me apetece chorar quando penso no ar sentido dela.
Durante dias nem fui capaz de contar ao M. Quando o fiz, ele olhou-me com ar de crítica mas perdoou-me.
Este episódio pode parecer insignificante, mas para mim não é. Lembra-me que a linha que separa o correcto do incorrecto é tenue, mesmo quando achamos que temos as ideias bem definidas.
Desculpa, filha.
(Normalmente consigo escrever os posts "mais sentidos" de uma forma que me consola, que no final me faz sentir melhor. Até tento terminar com uma frase conclusiva, que resume tudo e que soa bem. Com este post não foi possível. Escrevi-o com o coração apertado até ao fim. Não há consolo possível. Não há frase bonitinha a terminar. Lembra-te.)