ele não espera mais, quer comer. Já está meio acordado a fazer barulhos há algum tempo e acabou-se, agora é mesmo para comer. Já me vou habituando, mas ainda me custa este despertar tão cedo. Vendo bem até dá jeito, para acordar o M. e dar um beijinho nela antes de saírem de casa.
Depois de mamar mijou-se todo, temos que lhe mudar a roupa toda, depois de mudar a roupa toda cagou-se todo, temos que lhe mudar a roupa toda, outra vez.
Ela acorda e quer comer, mas não quer comer na cadeira, quer comer no sofá, "sozinha!", no sofá não pode ser, filha, berros, o pai "Se comes no sofá, não comes sozinha", berros, e eu só quero beber o meu leite quentinho que me dói tanto a garganta, berros, já está na cadeira a comer sozinha, pronto.
A colher é muito grande, metade da papa fica no babete, do babete para a cadeira, da cadeira para o casaco, ela remexe na papa da cadeira com a mão, eu refilo com ela, que não mexa, que espere, que eu limpo, que lhe dou uma colher mais pequena, ela a remexer na papa, e eu só quero o meu leite quentinho que me dói tanto a garganta, berros.
Depois ela tosse e é então que perco completamente a cabeça, que ela já estava boa, que foi passar o fim-de-semana fora e ficou pior, e eu já sabia, e não devíamos ter deixado de dar o xarope tão cedo, e quero a porcaria do leite quente, que me dói a garganta e não é pouco, e ela está cheia de papa por todo o lado, e ele refila que já é tarde, e a mim só me apetece berrar-lhe que ela já está com tosse outra vez e que a culpa é dele, e que ainda nem a cara lavei, e que detesto estas correrias quando ainda nem acordada estou, e só me apetece refilar com tudo e com todos.
Depois penteio-lhe o cabelo a correr, enfio-lhe o gorro, limpo-lhe a manteiga da boca, a correr, ele já saiu com as coisas e o pão dela na mão, "Dou-te o pão no elevador", para a convencer e ser mais rápido, e nem nos despedimos para ser mais rápido, e a cozinha está uma confusão, a mesa da sala uma confusão, coisa que a mim me complica com os nervos, já tão complicados esta manhã.
Arrumo tudo, bebo o leite, consolo-me que vou dormir um bocadinho e depois tudo vai ser mais fácil, arrependo-me de me irritar, de me deixar afectar desta maneira por coisas afinal tão pequenas, e é então que chego ao quarto e vejo o desodorizante e mais umas coisas na mesa-de-cabeceira dele, ai o que me irrita o desodorizante na mesa de cabeceira e já lhe disse, e deixa-o sempre, e também deixou a roupa esticada em cima da cadeira, ai o que me irrita, e já estou outra vez irritada, mas passa-me porque vou dormir um bocadinho, ele na caminha a dormir.
Arrumo tudo, tiro o roupão, e antes de me deitar vou só aconchegá-lo na cama, e é então que vejo.
Está a dormir com uma expressão tranquila e, por baixo dele, tudo vomitado. Vomitado na roupa, no cabelo, nos lençóis, na protecção da cama, e ele a dormir. Todo sujo e a dormir com uma expressão tão feliz e a mim só me apetece chorar.
(Porque não ouvi, porque não percebi, porque ele dorme por cima do vomitado, porque me irritei, porque ela está com tosse outra vez, porque me dói a garganta, porque tenho sono, porque sim)