Em situações de grande alegria ou de doença, a família e os amigos gostam de estar presentes. Gostam de participar dos bons momentos e de apoiar nos menos bons.
Quando a I. nasceu um dos meus grandes receios (juro) era a avalanche de visitas e palpites. Gosto de receber, mas também gosto do sossego da minha casa (eu sei que já disse isto). Numa situação em que me adivinhava tensa, fraca e ansiosa, sabia que muita gente à minha volta só ia atrapalhar.
Exigi ficar sozinha com o M. e o bébé que ia nascer na nossa casa na primeira semana, para desgosto e consternação dos familiares mais próximos. Não queria pessoas a dormir lá em casa e a baralharem-me o sistema nervoso. Acabei por pedir à minha mãe para ficar connosco, porque o M. estava prestes a entrar em época de exames da pós-graduação e achei que a ajuda da minha mãe era preciosa.
Pedi à minha mãe, porque era a única pessoa que eu sabia que ia ficar lá para me ajudar e não apenas para estar com o bébé. Que me ia fazer comida, lavar-me a roupa, ir às compras, aturar o meu mau-humor e ansiedade sem me perturbar ainda mais, lavar à mão a roupa suja do bébé. Tenho, naturalmente, com a minha mãe, um à-vontade que não tenho com mais ninguém e penso que qualquer pessoa percebe.
As visitas até nem foram exageradas, tirando uma ou outra situação em que alguém apareceu sem ser convidado e sem avisar (!), ou que me tocaram à campaínha às 10h da manhã (!!!!!!).
Mas lembro-me que só passado mais de um mês é que ficámos os três sozinhos em casa. E lembro-me de chorar por me sentir cansada e carente e ainda olharem para mim com incompreensão. O M. inclusivé.
O meu pai foi operado recentemente ao coração e no segundo dia depois da operação pode receber visitas. Esperou-nos na sala de visitas comum da ala onde estava internado, sentado numa cadeira. Ao todo chegaram cerca de 30 visitas. Eu lembro-me de ter sugerido à minha mãe que pedisse às pesssoas para não irem logo naquele fim-de-semana. Mas a minha mãe não é pessoa para dizer uma coisa dessas a alguém, e muita gente foi.
A meio da tarde o meu pai estava com um ar cansado e eu perguntei se ele se queria deitar. Ele admitiu que sim. Levei-o para o quarto com o M. e disse alto e bom som que ele estava cansado e ia descansar, que seria melhor irmos todos tomar um café e voltar na visita seguinte, passadas algumas horas.
Apesar disto, quando o estavamos a acomodar na cama, começaram a chegar pessoas ao quarto. As mesmas que estavam na sala e a quem tínhamos dito que ele queria descansar. Fiquei fora de mim. Fui rude e pedi às pessoas para sairem e o M. teve que me chamar à atenção. Só me apetecia chorar de raiva pelo meu pai deitado na cama com um ar abatido e as pessoas a insistirem em entrar e falar com ele. Fiquei furiosa com todos e com a minha mãe em particular por não ter sido capaz de assumir uma atitude menos "simpática" para protecção do meu pai.
É claro que sei que as intenções eram as melhores. Mas não seriam também um bocadinho egoístas?
(Mais tarde o meu pai sentiu-se mal e teve que ser medicado. Nada de grave, mas que podia ter sido evitado.)