2005-07-12

As boas intenções

Em situações de grande alegria ou de doença, a família e os amigos gostam de estar presentes. Gostam de participar dos bons momentos e de apoiar nos menos bons.

Quando a I. nasceu um dos meus grandes receios (juro) era a avalanche de visitas e palpites. Gosto de receber, mas também gosto do sossego da minha casa (eu sei que já disse isto). Numa situação em que me adivinhava tensa, fraca e ansiosa, sabia que muita gente à minha volta só ia atrapalhar.

Exigi ficar sozinha com o M. e o bébé que ia nascer na nossa casa na primeira semana, para desgosto e consternação dos familiares mais próximos. Não queria pessoas a dormir lá em casa e a baralharem-me o sistema nervoso. Acabei por pedir à minha mãe para ficar connosco, porque o M. estava prestes a entrar em época de exames da pós-graduação e achei que a ajuda da minha mãe era preciosa.

Pedi à minha mãe, porque era a única pessoa que eu sabia que ia ficar lá para me ajudar e não apenas para estar com o bébé. Que me ia fazer comida, lavar-me a roupa, ir às compras, aturar o meu mau-humor e ansiedade sem me perturbar ainda mais, lavar à mão a roupa suja do bébé. Tenho, naturalmente, com a minha mãe, um à-vontade que não tenho com mais ninguém e penso que qualquer pessoa percebe.

As visitas até nem foram exageradas, tirando uma ou outra situação em que alguém apareceu sem ser convidado e sem avisar (!), ou que me tocaram à campaínha às 10h da manhã (!!!!!!).

Mas lembro-me que só passado mais de um mês é que ficámos os três sozinhos em casa. E lembro-me de chorar por me sentir cansada e carente e ainda olharem para mim com incompreensão. O M. inclusivé.

O meu pai foi operado recentemente ao coração e no segundo dia depois da operação pode receber visitas. Esperou-nos na sala de visitas comum da ala onde estava internado, sentado numa cadeira. Ao todo chegaram cerca de 30 visitas. Eu lembro-me de ter sugerido à minha mãe que pedisse às pesssoas para não irem logo naquele fim-de-semana. Mas a minha mãe não é pessoa para dizer uma coisa dessas a alguém, e muita gente foi.

A meio da tarde o meu pai estava com um ar cansado e eu perguntei se ele se queria deitar. Ele admitiu que sim. Levei-o para o quarto com o M. e disse alto e bom som que ele estava cansado e ia descansar, que seria melhor irmos todos tomar um café e voltar na visita seguinte, passadas algumas horas.

Apesar disto, quando o estavamos a acomodar na cama, começaram a chegar pessoas ao quarto. As mesmas que estavam na sala e a quem tínhamos dito que ele queria descansar. Fiquei fora de mim. Fui rude e pedi às pessoas para sairem e o M. teve que me chamar à atenção. Só me apetecia chorar de raiva pelo meu pai deitado na cama com um ar abatido e as pessoas a insistirem em entrar e falar com ele. Fiquei furiosa com todos e com a minha mãe em particular por não ter sido capaz de assumir uma atitude menos "simpática" para protecção do meu pai.

É claro que sei que as intenções eram as melhores. Mas não seriam também um bocadinho egoístas?

(Mais tarde o meu pai sentiu-se mal e teve que ser medicado. Nada de grave, mas que podia ter sido evitado.)

10 Comments:

Blogger Morena said...

Ai mulher como tu me compreendes...
Só tenho vontade de fugir por uns dias...

16:25  
Blogger scaf said...

Ai tanto que temos em comum :)...só que eu não consigo dizer às pessoas que não...mas fico nervosa, stressada, choro, enfim...
Quanto à situação com o teu pai, bom, em tempos já tive oportunidade de te dizer o que achava disso :|

16:29  
Blogger Diana Bento said...

Bem, eu também não gosto de ter muitaaaa gente à volta. Gosto de ter alguma privacidade. Quando casámos disse ao H. que não queria que a nossa casa fosse um entra-e-sai. Ele chamou-me de egoísta. A minha sorte/azar é que o trabalho dele nem sempre lhe permite que esteja em casa ao fim-de-semana ou à noite e consegui, quase sem querer, que visitas abundantes sejam só na Páscoa e nos nossos aniversários.

Agora quando o bebé nascer... não sei. Espero que as pessoas tenham o bom-senso de pensar que precisamos de algum descanso. A ver vamos.

Beijinhos e desculpa tanta palavra.

16:49  
Anonymous Anónimo said...

E qdo o motivo é triste, mto triste, e a dor é tão gde q ninguém a fará desaparecer, por mto bem-intencionados q sejam, dói ainda mais ter gente à volta. Bem sei.

Um beijo de melhoras p/ o teu pai, q ainda cá está, pq há rostos q mm nunca tendo sido vistos nunca os esqueceremos.

Sandra Flores

17:57  
Blogger Mamã said...

Oi!
Sou estreante no teu blog.Vim só dar 1 hello!

Jinhos,

Mamã babada e pequena estrela

21:59  
Blogger LP said...

Essas coisas também me tiram do sério...

Beijinhos grandes

23:10  
Anonymous Anónimo said...

Olá Xana
Foi por acaso que cruzei com o teu blog.... e passei a ser visita regular, porque gosto do conteúdo, da simplicidade, das fotos... (como deve ser bom umas férias assim....). Gosto muito deste blog....

beijinhos
sou a Nat, mamã de duas princesinhas gémeas: Caterina e Patrícia, com 21 meses)

09:53  
Blogger Xana said...

Obrigada, Nat!

10:02  
Blogger Karla said...

Compreendo perfeitamente. Era bom se mais pessoas fossem como tu - eu incluída! Mas sabes, mais facilmente tomo uma atitude dessas em relação a outra pessoa (como tu fizeste com o teu pai) que em relação a mim. Depois claro, quem sofre sou eu. Para a próxima sei bem que NÃO farei como fiz com a Inês.

A minha sorte é ter uma mãe como a tua, nesse aspecto :)

10:25  
Blogger AnaBond said...

Pois é amiga... é por essas e por outras que te conheci a I. muito tempo depois...

Se já antes tinha consciência que tinha de pôr a minha curiosidade de parte e não ser egoísta, depois do João nascer ainda piorei... felizmente o maridão entende-me bem e conseguimos dar a volta às visitas em casa... tarde demais, pois no hospital, nos 3 dias que lá recebi visitas passei-me dos carretos (embora não tenha dito nada a ninguém) e nunca consegui descansar. Felizmente tinha pedido aos amigos para não irem lá, senão dava em doida... bastou-me a familia... e mesmo assim foi demais.

Não sou egoísta, entendo que as pessoas precisem de descansar... não entendo os outros que não percebem isso...

Costumo dizer aos amigos que nos primeiros 15 dias não me põem a vista em cima... mas para não levarem a mal pois é para bem deles... e que depois me irão agradecer... ainda não falhou nenhum (o agradecimento).

14:53  

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