De quando era muito miúda
chegam-me imagens difusas, algumas incrivelmente nítidas. A casa em Lisboa, o meu quarto e a cama que me parecia altíssima. O canto da sala entre o sofá e a aparelhagem. As escadas da casa na G., de pedra, muitas, muitas, e a lareira. O Natal e a fogueira em frente à igreja.
A minha mãe a cantar para adormecer o meu irmão mais novo, eu a tentar dormir no quarto ao lado, o pavor da morte. (Era nessa altura assaltada regularmente por esse medo na hora da sesta)
Hoje, porque a ouvi, lembrei-me desta música, nesses tempos idos:
Valsinha
de Chico Buarque / Vinícius de Morais
"Um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"
A minha mãe a cantar para adormecer o meu irmão mais novo, eu a tentar dormir no quarto ao lado, o pavor da morte. (Era nessa altura assaltada regularmente por esse medo na hora da sesta)
Hoje, porque a ouvi, lembrei-me desta música, nesses tempos idos:
Valsinha
de Chico Buarque / Vinícius de Morais
"Um dia, ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz"
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