Confesso-me
De vez em quando recebo mails simpáticos na conta de mail do blog. Comovem-me e deixam-me ao mesmo tempo com a sensação de não os merecer, de serem demais. É por isso que não me coíbo de me descobrir aqui no blog como imperfeita. Não gosto que me vejam como aquilo que acho que não sou. Espanta-me sempre que percebo que transmito uma imagem de calma e serenidade, porque o sou tão pouco. Tudo em mim é impaciências e fúrias, e comportamentos às vezes descontrolados. Ainda que por dentro.
Em relação à maneira como estou a lidar com a minha maternidade "recentemente aumentada" tenho muitas vezes receio de não dizer tudo, de dizer apenas o melhor.
Por isso, confesso-me.
Sou uma criatura complicada. Há pessoas que "descomplicam" e outras que complicam. Eu pertenço ao segundo grupo. É mesmo verdade. Teço sempre cenários piores do que na realidade são, antevejo dificuldades que podem nem chegar a existir, arranjo problemas onde eles não existem. Na maternidade e no resto. Acho que se fosse mais tranquila muita coisa na minha vida seria mais fácil. (Vale-me um homem "descomplicado" e calmo para me equilibrar)
A minha maior dificuldade quando o J. nasceu, não foi lidar com ele, mas com ela. Acho que sou melhor mãe de bebés pequenos que de bebés grandes. Ou será apenas mais fácil?
Não me faltava paciência e disponibilidade para o bebé que chorava, não dormia à noite, fazia chichis fora da fralda, etc. Faltava-me isso para ela. Não sei explicar, mas quase tudo nela me impacientava, me cansava. As birras, os choros, as contradições. Era-me difícil estar com ela. Acho que se deveu muito ao cansaço, mas isso não me desculpa. Eu não me sinto desculpada. Agora está mais fácil, claro.
Também me custava lidar com os dois juntos. Sentia (sinto, ainda que menos, agora) um ímpeto de proteger o pequeno dos avanços da irmã. Dos beijos desajeitados, das tentativas de o magoar, deliberadas ou não (às vezes fazia-o para nos provocar). Ficava tensa, na defensiva, e muitas vezes revoltava-me interiormente contra ela, coitada. Mas não o conseguia evitar. Pelo menos tentava só o sentir e não o demonstrar, mas nem sempre consegui. Também isto me é agora muito mais fácil de gerir, ainda que não seja desenrascada o suficiente para ficar muito tempo sozinha com os dois. Atrapalho-me, faltam-me braços e mãos e serenidade.
Senti e ainda sinto estas dificuldades e acho importante escrevê-las aqui. Porque me quero recordar destes dias com tudo. Com risos e com lágrimas, com euforias e desesperos. Assim, um todo.
Em relação à maneira como estou a lidar com a minha maternidade "recentemente aumentada" tenho muitas vezes receio de não dizer tudo, de dizer apenas o melhor.
Por isso, confesso-me.
Sou uma criatura complicada. Há pessoas que "descomplicam" e outras que complicam. Eu pertenço ao segundo grupo. É mesmo verdade. Teço sempre cenários piores do que na realidade são, antevejo dificuldades que podem nem chegar a existir, arranjo problemas onde eles não existem. Na maternidade e no resto. Acho que se fosse mais tranquila muita coisa na minha vida seria mais fácil. (Vale-me um homem "descomplicado" e calmo para me equilibrar)
A minha maior dificuldade quando o J. nasceu, não foi lidar com ele, mas com ela. Acho que sou melhor mãe de bebés pequenos que de bebés grandes. Ou será apenas mais fácil?
Não me faltava paciência e disponibilidade para o bebé que chorava, não dormia à noite, fazia chichis fora da fralda, etc. Faltava-me isso para ela. Não sei explicar, mas quase tudo nela me impacientava, me cansava. As birras, os choros, as contradições. Era-me difícil estar com ela. Acho que se deveu muito ao cansaço, mas isso não me desculpa. Eu não me sinto desculpada. Agora está mais fácil, claro.
Também me custava lidar com os dois juntos. Sentia (sinto, ainda que menos, agora) um ímpeto de proteger o pequeno dos avanços da irmã. Dos beijos desajeitados, das tentativas de o magoar, deliberadas ou não (às vezes fazia-o para nos provocar). Ficava tensa, na defensiva, e muitas vezes revoltava-me interiormente contra ela, coitada. Mas não o conseguia evitar. Pelo menos tentava só o sentir e não o demonstrar, mas nem sempre consegui. Também isto me é agora muito mais fácil de gerir, ainda que não seja desenrascada o suficiente para ficar muito tempo sozinha com os dois. Atrapalho-me, faltam-me braços e mãos e serenidade.
Senti e ainda sinto estas dificuldades e acho importante escrevê-las aqui. Porque me quero recordar destes dias com tudo. Com risos e com lágrimas, com euforias e desesperos. Assim, um todo.
29 Comments:
Ó Xana, mas tu ainda não percebeste que não é a tua suposta perfeição mas a tua "humanidade" que cativa? Que não são os posts onde dizes o bom mas os posts onde confessas o menos bom que prendem?
Porque, mais ou menos, todas passamos por isso, mas umas (como eu) não conseguem nem falar das piores situações, e tu tens o condão de escrever o que nos (vá lá, o que me) passa pela cabeça.
Beijinho grande :)
De quem poderia ter escrito tudo isto, acredita que it only gets better, a sério.
Aprendemos com os "erros". E é assim que tem que ser.
Bjkas
Xana uma vez disse a uma pessoa que aprendi a ler-te, de inicio não percebia muito bem, depois cheguei à conclusão que tu escreves para ti, o que te vai na alma, que este blog serve por vezes de desabafo ao que sentes ( não sei se estou certa ou não).
Muitas vezes não comento pq penso que são posts muito pessoais muito teus, mas gosto de te ler e admiro-te por conseguires colocar na escrita o que sentes!
Beijinhos
concordo com a Karla. é sobretudo como escreves que atrai.
mesmo depois das explosões e das fúrias, consegues depois arrumar os factos e as tuas ideias. pelo menos na escrita tornas-te serena. imagino até que seja mais ou menos uma forma de "terapia" (para mim é muitas vezes...)
curiosamente sou o oposto de ti numa coisa: eu gosto mais, ou melhor, eu tenho mais jeito/à vontade para lidar com bebés maiores e crianças pequenas do que com os bebezinhos muito pequenos.
é algo sobre o qual tb hei-de escrever... :)
Minha querida, é por seres assim, perfeita com imperfeições, que te tornas única!
Como eu adoro a tua maneira de sentir. E de escrever!
A tua escrita entra facil em quem te lê, e eu nao falho um dia :-).
Ninguem é perfeito e ela tb não existe.
Bjs.
Consegues pôr tudo em palavras. De uma forma especial. Quando te leio sinto muitas vezes: "É exactamente isto!" e pergunto-me porque será que, sendo tão simples, não o consegui escrever eu própria.
E não acho que passes nada essa imagem de perfeição de que falas. Se a passasses provavelmente não gostaria de te ler. Desconfio muito de coisas que parecem perfeitas.
Eu, que não sou mãe, senti qualquer coisa parecida com isso quando tive primos pequenos. Os irmãos mais velhos, muitas vezes com pouco mais diferença que os teus filhos, transformavam-se em tiranos, monstrinhos, mesmo. Pelo menos para mim. E senti que um dos maiores problemas que há nos ciúmes entre irmãos é isso mesmo, é as pessoas à volta terem mais paciência e vontade de estar com os pequeninos, o que é uma injustiça para os grandes, que antes eram os adorados. Vejo isto como auto-reflexão, não uma crítica.
Eu gosto muito do que escreves, ponto final. :)
*
Sem "papas na língua" escreves tudo, o bom e o menos bom.
E eu que ainda não sou mãe e já sou uma pessoa complicada, gostava de ser uma mãe assim complicada como tu!
Com o descomplicador no sítio quando é preciso!
Obrigada por partilhares a tua estória.
:*
Já disseram tudo.
Eu, como a Pal, também acho que tenho mais jeito para os bebés maiorzinhos. Quando já falam e dizem por que é que choram... :))
Eu, que pertenço ao grupo que descomplica (no que se refere a filhos apenas), senti algo semelhante quando nasceu o bebé. O pior era saber que o ía sentir (porque fui irmã mais velha) e ainda assim não o ter conseguido evitar. Esse apaixonamento que sentimos quando nos nasce um filho é terrivelemnte duro e injusto para os irmãos.
Ainda hoje luto com os meus sentimentos em relação a isso, todos os dias. Porque é claro que um bebé é sempre mais amoroso, inocente (ainda que culpado), mimado do que uma miuda mal disposta. Acho que aprendemos ambas (eu e ela) a lidar com isso um pouco melhor todos os dias. Por exemplo quando estou sozinha com ela, tudo é maravilhoso.
Bjs
Às vezes, chateia ler mãezinhas perfeitas-de-filhos-igualmente-perfeitos.
Ler alguém a admitir a sua simples condição de ser humano, não só é uma lufada de ar fresco, como também é gratificante. Sobretudo para quem se admite humana e e imperfeita também!
Parabéns!
É por causa destes posts que venho aqui, sabes?
Bjs
Não há mães perfeitas, nem filhos perfeitos. E acho que quem abre os cantinhos de outras mães na blogoesfera procura identificar-se, procura os seus sentimentos nas outras. E esses sentimentos são,tantas vezes, de frustração, cansaço, desânimo e fúria. Não gosto de quem pinta um cenário idílico da maternidade. É mentira e pode fazer a pessoa do outro lado sentir-se ainda pior. A maternidade é, para mim, muito do que tu escreves. Bom e mau. E muito bem (d)escrito. :)
Já tudo foi dito!
E realço o comentário da Liliana, é por estes que vale a pena ser assídua!
Continua assim, sempre.
Beijocas
Silvia & Cia
O que eu acho é q, através da escrita, tu revelas ter uma capacidade de auto-análise extraordinária... Há coisa melhor para evoluirmos como pessoa? Parabéns cunhada ;)
Tornou-se um vício "visitar-te", não só porque me fazes rir, como tb por vezes chorar... muitas vezes, consegues descrever ao pormenor aquilo que me vai na alma!!
Obrigada
Rita
Gosto muito de te ler, revejo-me em alguns dos teus posts, e também um pouco neste mas não tive muita dificuldade em lidar com o mais velho porque le é um querido e as birras não aumentaram por causa da irmã. Eu é que estava cansada e não tinha paciência.
Bjs e continua a escrever que eu adoro!
É essa perfeição a explicar a imperfeição que faz deste blog um dos meus favoritos.
Obrigada pelas palavras e sentimentos que partilhas.
Beijinhos :)
Adoro o que escreves, como escreves, como dizes o que NOS vai na alma. E acima de tudo identifico-me com a tua maneira de ser! (não sei como to dizer, mas para além da tua escrita é a tua personalidade que me traz aqui várias vezes ao dia. é bom haver pessoas assim no mundo)
Beijos grandes, amiga!
Obrigada a todas pelas vossas palavras amigas! ;)
Olá
Acho que já disseram tudo, mas não quis deixar de comentar. Adoro a tua maneira de escrever porque tu não falas só das coisas boas, falas das menos boas, das tuas furias e da tua impaciência. Eu também sou de furias, sou muito impaciente, complicada mas também tenho a sorte de ter uma marido que é calmo e me equilibra, mas às vezes gostava de ter mais paciência e calma para o meu filho. Quero muito ter outro, mas tenho medo de não saber lidar com os dois. Revejo-me muitas vezes nas coisas que escreves, gostava de ter essa capacidade de escrever tão bem como tu. Continua! A perfeição não existe, aliás é bem aborrecido ser-se perfeito.
acho que a karla disse tudo...
e por mim, não passas nenhuma ideia que és perfeita, passas sim que és humana.
e a 'a leste' também disse o que queria dizer: "pergunto-me porque será que, sendo tão simples, não o consegui escrever eu própria."
e isso mesmo... tu escreves o que muita gente sente e escreves de uma maneira simples, humana e realista. e é isso que cativa.
sabes que temos diferenças e mesmo assim consigo 'ler-me' em montes de palavras tuas...
eu gosto de te ler. e gosto de ti tal como és... e espero que saibas disso.
penso no meu blog como tu pensas no teu. Tem de ser registadoo os bons e os maus momentos... porque a memória muitas vezes nos prega partidas.
E é tão bom ser imperfeito!
Todas nós adoramos ler o teu blog e gostamos de ti como és.
E adoramos a capacidade extraordinária que tu tens de transcrever o que te vai na alma, quer nos melhores momentos, quer nos piores.
Não és a melhor pessoa do mundo, mas é espetacular.
o que penso de ti, da tua escrita tu já sabes.
O que penso deste post....penso que me fez relembrar determinadas coisas que ainda hoje, por muito que queira, não sei descrever. Porque não tenho o teu dom!
Beijos
Força Xana :)
Ninguém é perfeito! Todos nós passamos a vida a tentar organizar-nos na confusão que é a Vida!
Olá Xana!
Quanto à "primeira parte" do teu post, tenho a dizer que parecia mesmo que estavas a falar de mim. Também eu me confesso, eu descontrolada, eu pessimista, eu complicada.
Quanto à "segunda parte", como te compreendo! Sou "vítima" de quase 6 meses de licença de materinidade (+férias) com os 2 filhotes pequenos cá em casa. Sozinha com os dois é obra! Ainda hoje não é fácil, mas já se faz muito melhor. Engraçado é que a minha reacção fase aos dois foi inversa. Ele teve uma primeira relação com a irmã nada fácil, sem comer, a vomitar. Ainda hoje sinto que o protejo mais. Acho que talvez por isso a minha Matilde seja tão desenrascada!
Beijocas
Muita força
Marisa
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